sábado, 24 de dezembro de 2011


"Chega de promessas que jamais vão se cumprir.
Chega de não fazer força para esquecer.
Chega de lembrar do que faz doer.
Chega de se culpar. Chega de acumular sofrimentos.
Chega de não conseguir se perdoar. Chega de procurar sarna para se coçar.
Chega de gostar de quem não dá a mínima para você.
Chega de se esconder da vida. Chega de falsas amizades.
Chega de gente efusiva. Chega de quem pensa que você é obrigado a ouvir.
Chega de se boicotoar. Chega de não pegar a força de vontade pela mão.
Chega de deixar a vida passar por você. Chega.
É tempo de mudanças internas e externas.
A hora de faxinar seu coração é agora. Jogar toda aquela tralha fora, tirar o pó que dia a dia vai crescendo, arrumar a casa aí dentro, organizar a sua vida emocional.
Pode parecer clichê e uma bobagem sem tamanho, mas é só quando você se organiza por dentro que as coisas começam a andar de vez.
Sua vida anda empacada feito mula? Mude.
Troque os móveis de lugar, arrume as gavetas, dê um up no visual, faça um caminho novo, troque a música do seu celular.
Dê um basta em gente mesquinha, fofoqueira, que não tem nada de bom pra dizer e infeliz. Se livre dos problemas, pois o que está na nossa mão a gente pode mudar, mas precisamos ter consciência de que nem tudo está ao nosso alcance. Estabeleça metas que você pode alcançar, pois se a gente fica querendo o impossível a frustração cedo ou tarde bate na porta. Decida o que você não quer mais na sua vida. Esse é um bom jeito de abrir espaço para tudo aquilo que você sonha. Ou tudo que você nem sabe que deseja." (Clarissa Corrêia)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011



Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor, vem me buscar

O meu destino é caminhar assim
Desesperada e nua
Sabendo que no fim da noite serei tua
Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva
Acumulando de prazeres teu leito de viúva

Bárbara, Bárbara
Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás
Meu amor vem me buscar

Vamos ceder enfim à tentação
Das nossas bocas cruas
E mergulhar no poço escuro de nós duas
Vamos viver agonizando uma paixão vadia
Maravilhosa e transbordante, como uma hemorragia

Bárbara, Bárbara Nunca é tarde, nunca é demais
Onde estou, onde estás

Meu amor vem me buscar

Bárbara



(Chico Buarque)

sábado, 17 de dezembro de 2011


O amor encontra sua dignidade na vergonha.
Envergonhar-se de um amor é ter orgulho dele.
Choro por um amor. Despedaço-me por um amor. Fragmento-me por um amor. Faço chantagem por um amor. Digo o que não devo por amor. Estrago uma festa por amor. Amor desesperado é ainda o jeito mais tranqüilo de amar. Não conheço outra paz senão a de guerrear no fundo de um copo. Não sou homem de tranqüilizantes, de remédios na cômoda, de sono induzido. Meu quarto é o bar, público e derradeiro. Meu travesseiro é uma toalha de mesa plastificada. Amor só sabe gemer falando alto. O amor é aguardar uma resposta. A fossa é o período de uma resposta a outra. Não há como amar sem prejuízo. Sem acreditar que não deu certo. É inacreditável como apaixonados contam as mais absurdas confidências a estranhos e escondem os detalhes dos mais próximos. Todo garçom já foi nosso padre um dia. Nosso confessor. A gravata-borboleta é nossa batina. Amor é esse estágio necessário de loucura para suportar a normalidade. Quando amo, não preciso de psiquiatra, preciso de um táxi para voltar. Amor mesmo é coisa de boteco, com potes de ovinhos de codorna e cachaça nas prateleiras. Amor não tem nojo, repulsa, pudor de sofrer. Sofremos de amor para abrir espaço por dentro e desalojar antigos moradores. Amor não é próprio de restaurante ou de guardanapo nos joelhos. Não haverá um porteiro saudando com "boa-noite", não haverá recepção ou um senhor para abrir a porta. Aliás, não terá porta, é uma garagem para o corpo balançar à vontade e não quebrar nada. Não espere cardápio no amor, espere cartazes nas paredes. As lâmpadas estarão com as braguilhas abertas no teto. Amor mesmo é devasso, cafona, cadeira de metal amarela, dobrável e enferrujada. Deve-se tomar cuidado para não sentar na ponta. O amor não vem da elegância de um lugar, vem da nobreza da dor. O amor é o solitário do balcão, a retirar vagaroso o rótulo úmido da garrafa porque não pode despir sua mulher. Fica delirando em braile. Aprende inglês com as moscas. Joga dama com os cascos. Reza dez ave-marias para cada pai-nosso. Descobre que o terço é feminista. A cada vez que pensa em si, pensa dez vezes no corpo dela. Não se limpa um amor no banheiro. Limpa-se com as mangas da camisa na frente de todos. O amor é a boca assoando. O amor não pede a conta na mesa, é a conta. Não há amor se você não for o último cliente. O último a sair é que está realmente amando. Quem ama não guarda o dinheiro na carteira, deixa avulso e amassado no bolso. É sintomático. Estará cantando Amado Batista sem querer. E se espantará que conhece a letra, egressa de alguma estação da infância. Só pode ser do radinho materno, ao lado do fogão. Sua mãe colocou aquelas canções em sua comida.

(Fabrício Carpinejar)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011


Que Deus ouça as preces que lhe dirijo quando estou mansidão e ternura.
Quando estou contemplação e respeito. Quando as palavras fluem, sem esforço algum, sem ensaio algum, articuladas e belas, do lugar em mim onde eu e ele nos encontramos e brincamos de roda. Quando nelas incluo as pessoas que têm nome e aquelas que desconheço existirem. E os meus amores. E os meus desafetos. E os bichos. E as plantas. E os mares. E as estrelas. E
Que Deus ouça as preces que lhe dirijo quando o medo me acompanha sem que a coragem se ausente. Quando as coisas seguem o seu rumo sem que eu me preocupe em demasia com o destino desse movimento. Quando eu me sinto conectada com o amor e reverente à vida. Quando as lágrimas nascem apenas de um alegre e comovido sentimento de gratidão. Quando caminho com a rara confiança que só as crianças que ainda não doem costumam experimentar, já que, infelizmente, algumas começam a doer muito cedo.
Que Deus ouça as preces que lhe dirijo quando sou capaz de pressentir o sol mesmo atravessando uma longa noite escura. Quando posso cruzar desertos com a clara convicção de que a vida não é feita somente deles. Quando consigo olhar para todas as experiências, sem que aquelas que me desconcertam me impeçam de valorizar as que me encantam. Quando as tristezas que repentinamente me encontram não atrapalham a certeza da sua impermanência.
Que Deus ouça as preces que lhe dirijo quando amanheço revigorada e anoiteço tranqüila. Quando consigo manter uma relação mais gentil com as lembranças difíceis que, às vezes, ainda me assombram. Quando posso desfrutar do contentamento mesmo sabendo que existem problemas que aguardam eu me entender com eles. Quando não peço nada além de força para prosseguir, por acreditar que, fortalecida, eu posso o que quiser, em Deus.
Mas eu desejo, profundamente, que Deus também ouça as preces que lhe dirijo quando eu não consigo elaborar prece alguma. Quando a dor é tão grande que minha fala não passa de um emaranhado de palavras confusas e desconexas que desenham um troço que nem eu entendo. Quando o medo me paralisa e perturba de tal forma que eu me encolho diante da vida feito um bicho acuado. Quando me enredo nas minhas emoções com tanta confusão que parece que aquele tempo não vai mais passar.
Que Deus ouça também as preces que lhe dirijo quando só consigo chorar e, mesmo depois de já ter chorado muito, tenho a sensação de ainda não ter chorado tudo. Quando me sinto exaurida e me entrego a esse cansaço completamente esquecida dos meus recursos. Há momentos em que a gente parece ignorar tudo o que pode nos ajudar a lidar melhor com os desafios. Há momentos, ainda, em que a gente se confunde sobre o local onde, de verdade, os desafios começam.
Que Deus ouça também as preces que lhe dirijo quando me parece que eu não acredito em mais nada. Quando sou incapaz de ver qualquer coisa além do foco onde coloco a minha dor. Quando não consigo articular meus pensamentos nem entrar em contato com alguma doçura que me faça lembrar das coisas que realmente nos movem. Quando não lhe dirijo nenhuma prece. Nem com palavras. Nem com um sorriso enternecido quando dou de cara com uma flor. Com um pôr-de-sol. Com uma criança. Com uma lua cheia. Com o cheiro do mar. Com o riso bom de um amigo. Que ele me ouça com o seu ouvido amoroso e me acolha no seu coração, porque é exatamente nesses momentos que eu não consigo ouvi-lo em mim.

(Ana Jácomo)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


"Ontem gastei todo o meu dinheiro e comprei um terreno em Marte. Eis a foto, cedida pela NASA, do meu pedaço de felicidade. Sem gente, sem bicho, sem planta, sem carro, sem computador. Eu e a imaginação vamos morar no vazio. No infinito. Pretendo não manter mais contato com os tolos, nem com os que habitam minha mente em memórias de estúpidos convívios do passado. Adeus."
(Girassóis no escuro)

domingo, 11 de dezembro de 2011


– Amar é perigoso.
– Sei disso – respondi – Já amei antes.
Amar é como uma droga.
No começo vem a sensação de euforia, de total entrega. Depois, no dia seguinte, você quer mais.
Ainda não se viciou, mas gostou da sensação, e acha que pode mantê-la sob controle. Pensa na pessoa amada durante dois minutos e esquece por três horas. Mas aos poucos, você se acostuma com aquela pessoa, e passa a depender completamente dela.
Então pensa por três horas, e esquece por dois minutos.
Se ela não está perto, você experimenta as mesmas sensações que os viciados têm quando não conseguem a droga.
Neste momento, assim como os viciados roubam e se humilham para conseguir o que precisam, você está disposto a fazer qualquer coisa pelo amor.

(Paulo Coelho)

sábado, 10 de dezembro de 2011


"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais.

Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável.

Essa terceira perna eu perdi.

E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.

Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas.

Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar."

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011


"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011


"Hoje eu acordei numa casa diferente, num quarto diferente, sem nenhuma muleta, sem nenhuma maquiagem, meus amigos estão ocupados, meus pais não podem sofrer por mim.
Hoje eu acordei sem nada no estômago, sem nada no coração, sem ter para onde correr, sem colo, sem peito, sem ter onde encostar, sem ter quem culpar.
Hoje eu acordei sem ter quem amar, mas aí eu olhei no espelho e vi, pela primeira vez na vida, a única pessoa que pode realmente me fazer feliz"

Tati Bernardi

segunda-feira, 28 de novembro de 2011


"Vasculhando nas memórias algum assunto, encontrei a carta que eu rabisquei na capa de um livro: “pra você”, era o destinatário.
Não sei por que não mandei, talvez não quisesse passar a limpo o passado.
Em letras garrafais eu te dizia: “acertei o caminho não porque segui as setas, mas porque desrespeitei todas as placas de aviso”.
E achei curioso eu usar essa metáfora sem nem ao certo saber o que queria te dizer com isto.
E depois de repousadas aquelas palavras eu percebi quanta coisa eu escrevi pra você, querendo dizer pra mim.
Porque eu jamais chegaria aonde cheguei se só andasse em linha reta.
Tive que voltar atrás, andar em círculos, perder dias, perder o rumo, perder a paciência e me exaurir em tentativas aparentemente inúteis pra encontrar um quase endereço, uma provável ponte: a entrada do encontro.
Você tão ocupado com seus mapas, tão equipado com sua bússola, demorou tanto, fez sinais de fumaça e não veio.
Você simplesmente não veio.
Mas me ensinou a intuir caminhos certos, a confiar nos passos, a desconfiar dos atalhos.
Porque eu estava do outro lado e só.
Sem amparo. Mas caminhava.
E você estava absolutamente equipado com seu peso.
E impedido de andar por seus medos."

(Marla de Queiroz)

domingo, 27 de novembro de 2011


Às vezes, na estranha tentativa de nos defendermos da suposta visita da dor, soltamos os cães. Apagamos as luzes. Fechamos as cortinas. Trancamos as portas com chaves, cadeados e medos.
Ficamos quietinhos, poucos movimentos, nesse lugar escuro e pouco arejado, pra vida não desconfiar que estamos em casa.
A encrenca é que, ao nos protegermos tanto da possibilidade da dor, acabamos nos protegendo também da possibilidade de lindas alegrias. Impossível saber o que a vida pode nos trazer a qualquer instante, não há como adivinhar se fugirmos do contato com ela, se não abrirmos a porta. Não há como adivinhar e, se é isso que nos assusta tanto, é isso também que nos dá esperança.

É maravilhoso quando conseguimos soltar um pouco o nosso medo e passamos a desfrutar a preciosa oportunidade de viver com o coração aberto, capaz de sentir a textura de cada experiência, no tempo de cada uma. Sem estarmos enclausurados em nós mesmos, é certo que aumentamos as chances de sentir um monte de coisas, agradáveis ou não, mas o melhor de tudo, é que aumentamos as chances de sentir que estamos vivos. Podemos demorar bastante para perceber o óbvio: coração fechado já é dor, por natureza, e não garante nada, além de aperto e emoções mofadas. Como bem disse Virginia Woolf,
"não se pode ter paz evitando a vida."


(Ana Jácomo)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011


"Tudo novo de novo

O choro secou. Um outono doce impera com seu aconchego de amor e lucidez, suaves.
E esse abraço aveludado que chegou repentinamente, num calorzinho de cuidados e curas.
Não restam mais feridas.
A dor perdeu seu lugar na minha rotina e foi procurar outros rumos.
Tenho novos sonhos e um sono novo e profundo.
Suavemente tudo mudou de ritmo e celebrei o tempo de cada novo passo.
A princípio tive tanta ansiedade, porque tudo parecia um turbilhão, mas de que adianta tentar pular aprendizados?
Se é de poesia que o poeta precisa, vamos a ela e não mais à repetição de uma melancolia eterna e bem aprimorada.
Chuva e sol, calor e frio: eis o equilíbrio da vida.
Se eu nasci com o sorriso mais largo do mundo, não vou entristecer o meu olhar nem anestesiar minha alegria.
O choro secou.
Já era tempo de prestar mais atenção em outras cores, promover como prediletas outras flores e entrar no mar sem medo, furando a onda com respeito e repetindo a cena com entrega e confiança.
Nada ficou fragmentado.
Saí inteira e o amor em mim transborda: pele aceitando carícia, olhar brilhando com a menor das delícias.
O toque é novo e a respiração tranqüila.
Às vezes ainda ofego um pouco, mas quem disse que artista nasceu para sentir pouco? Importante agora é que o choro secou.
Antes o meu pranto era cego.
Tive que olhar longamente no espelho pra saber o que ainda poderia resgatar de mim.
Não quis nada do que restou, quis o meu sorriso novo, minhas portas abertas e a vontade de saltar novamente no desconhecido.
E hoje eu só choro se for de alegria.
(...)Os grandes relacionamentos que tive foram os que me renderam as melhores metáforas.
Que me despertaram uma vontade constante de ser uma pessoa cada vez melhor e mais inteira.
Que me deram colo e não conselho e beijo na boca quando o silêncio ainda era a melhor resposta. Algumas dessas pessoas se foram antes que eu pudesse lhes contar uma história bonita e eu chorei feito menina.
Outras ficaram até descobrir que uma caixa de quiwís era o melhor presente que eu poderia ganhar no meio de uma tarde triste...
Outras, ainda, me cobraram respostas demais e eu só sabia que nunca aprendi a andar de perna de pau porque tenho medo de altura (o que por um lado pode ser também resposta para várias outras coisas).
Mas todas essas pessoas me desenvolveram e isso ficou comigo; são minhas porque faziam parte do meu potencial amoroso e elas vieram só pra me conduzir ao melhoramento do meu amor.
Hoje o meu grau de exigência aumentou muito porque aprendi que dar amor não é a mesma coisa que dar carência.
Por isso fico sozinha pelo tempo que for necessário para ter novamente essa sensação de "encontro".
Abandonei um monte de certezas, recuso sem pudor algumas regras e desrespeito várias vezes as placas de aviso de perigo.
Me divirto muito ou sofro, mas tenho cada vez mais faisquinhas nos olhos por viver as coisas em sua totalidade, sem recusar experiências e aproveitando diversas possibilidades.
O que posso dizer é que existem na vida pessoas sedutoras e seduzíveis por quem nos apaixonaremos "definitivamente" todos os dias e que amaremos "para sempre"... hoje!
Agora, tem um lado muito romântico meu que diz que a "tal pessoa" virá e enroscará uma margaridinha nos meus cabelos cacheados, fazendo pousar no meu rosto o sorriso de um beija-flor...
e plagiará Neruda sussurrando ao pé do ouvido:
"Quero fazer com você, o que a Primavera fez com as cerejeiras..."

(Marla de Queiroz)


"Porque eu tenho pesadelos que parecem tão reais até quando você me abraça.

E eu acordo triste, e brigo de verdade e passo o dia grave e dolorida como quando a gente leva um tombo no piso liso... que é só o passado.

É como se eu sentisse um ciúme horroroso do meu livro predileto comprado em sebo, a dedicatória apaixonada que não é a minha, os resquícios do manuseio de outras mãos.

Alguém corrompeu o trecho que eu mais gostava quando grifou à caneta algo que não pude apagar com borracha e que era tão secretamente meu.

Desenhou corações onde só havia minha dor e eu discordei da interpretação alheia.

E achei aquilo tudo de uma crueldade atroz.

Mas permaneci com o livro no colo, cheia de um afeto confuso por ele: afeto pelo que era, angústia por já ter sido de outro alguém, e aquela sensação (imbecil) de falta de exclusividade.

Eu que sempre achei que tudo é e está para o mundo.

Perdoa o meu senso de autoimportância, já que não consigo perdoar o meu egoísmo.

Eu sei que em alguns presentes, no embrulho, laços do passado são aproveitados.

Eu só queria que eles não fossem tão vermelhos: desses que doem nos olhos e no coração."

Marla de Queiroz


domingo, 20 de novembro de 2011



A IMPONTUALIDADE DO AMOR

Você está sozinho.

Você e a torcida do Flamengo.

Em frente a tevê, devora dois pacotes de Doritos enquanto espera o telefone tocar.

Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! É sua mãe, quem mais poderia ser?

Amor nenhum faz chamadas por telepatia. Amor não atende com hora marcada.

Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase galinha, sem disposição para relacionamentos sérios.

Ele passa batido e você nem aí.

Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver.

Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans.

Agora que você está empregado, lavou o carro e está com grana para um cinema.

Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retrato e começou a gostar de jazz.

Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio.

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina.

Você passa uma festa inteira hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga, e mal repara em outro alguém que só tem olhos pra você.

Ou então fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana.

Toda a sua turma está lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido a sua vida.

O amor é que nem tesourinha de unhas, nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste.

Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro.

Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole.

O amor está em todos os lugares, você que não procura direito.

A primeira lição está dada: o amor é onipresente.

Agora a segunda: mas é imprevisível. Jamais espere ouvir "eu te amo" num jantar à luz de velas, no dia dos namorados.

Ou receber flores logo após a primeira transa.

O amor odeia clichês.

Você vai ouvir "eu te amo" numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, e as flores vão chegar no dia que você tirar carteira de motorista, depois de aprovado no teste de baliza.

Idealizar é sofrer.

Amar é surpreender.

(Martha Meddeiros)


A Alegria na Tristeza

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.
O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.
Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.
Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.
Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.
Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.
Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada.

Triste é não sentir nada.

(Martha Medeiros)



terça-feira, 15 de novembro de 2011


“Querido coração:

Me prometa uma coisa, quando você se apaixonar novamente não se permita fugir da realidade, sonhe mas por favor sonhe com os pés no chão, ultimamente Eu e Você nos machucamos por pequenas e grandes coisas, então quando isso acontecer novamente, esteja maduro o suficiente pra encarar tudo com sabedoria, eu peço que você ame da mesma medida em que esta sendo amado, mas não se deixe enganar outra vez, lembra que temos cicatrizes né??
Então querido coração eu só falo essas coisas por mim e por você, pelo nosso bem devemos lembrar sempre que nosso amor próprio tem que vim em primeiro lugar não esqueça disso Jamais!!”


(Desconhecido)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011


"Quem sabe eu ainda sou criança, ou um velho, eu não sei.
Quem sabe eu já entrei na dança, quem sabe eu não dancei.
Quem sabe eu não saiba nada, ou saiba tudo que eu não sei.
Quem sabe a hora está errada, ou há horas já errei.
Talvez eu deixe você escolher. Quem saiba eu me perca por aqui.
Às vezes quero tudo que sonhei.
Às vezes o que eu quero é desistir.
Pedaços de papel rasgado em cima da mesa de um bar.
Não fume, não beba, não viva, não pense em sonhar.
Pedaços de um coração partido em frente a uma carta de amor.
Não chore, não ligue, não volte, não ouse me amar.

Milhas e milhas eu fui percorrer, por milhas eu não soube aonde ir.
Às vezes não espero me encontrar.
Talvez um dia eu te encontre por aí."


Rodrigo Tavares

segunda-feira, 7 de novembro de 2011




"Ando bem nostálgico.Larguei o emprego a poucos dias. Penso em viajar, recomeçar tudo sem você. Talvez consiga, ser denovo, enfim feliz. Me distanciei das pessoas, ando bastante solitário. Não faço barba, sempre mancho a camisa de café. Voltei a fumar também. Às vezes bebo nesses domingos monótonos, deito no chão e me sufoco de tédio, nostalgias, saudades e porres. Não sei se consigo continuar. Tá bem díficil. A propósito, eu morri ontem. Por dentro. Apodreci, congelei, sequei de vez. Como de costume, fui aquele lugar que tomávamos café. Quer dizer, onde eu comprava o café pra te levar na cama e te acordar aos beijos. Passei em frente a uma loja de televisivos também, por incrível que pareça, nosso filme estava passando em todas as telas. Ignorei, doía. Passei a frente da livraria, e vi aquele seu livro. O favorito, até. Aquele que você tentava me convencer a ler quando nos conhecemos e ficava me contando a história. Comprei ele. Não sei, talvez me fizesse mais próximo de você mesmo depois de tudo que aconteceu. Vi casais apaixonados, e sentia inveja. Lembrava de como éramos. Vi crianças e lembrei dos nomes que tentávamos escolher antes de dormir. Via idosos e lembrava do nosso “para sempre”… Do tempo que ficaríamos juntos. Tudo me lembrava você. Passei em frente aquela praça também, cujo banco fica no topo e dá pra ver toda a cidade. Aquela que você sempre me pedia meia hora que já ia chegar e demorava algumas horas se arrumando pra tentar me surpreender. Mal sabia que ficava linda de qualquer forma pra mim. O dia queria me dizer alguma coisa. Tinha perdido a noção de tempo, desde que aquilo aconteceu. Não estou dentro de mim, alias. Cheguei, e olhei o calendário. Dia 27 de julho. Naquele dia, completavam-se cinco anos após sua morte. Ontem, aliás. Eu encarei o calendário e não quis acreditar. Pela primeira vez, cai em mim que tinha te perdido. Mesmo nos amando. Não gosto dessa ideia. Faziam cinco anos, e eu ainda te amava. Você ainda era tudo pra mim. Eu disse que seria pra sempre, não é? Pois então. Te encontro em meia hora?"


(Desconhecido)

Carta achada em meio as páginas de um livro encontrado num apartamento bagunçado. Páginas manchadas de sangue, e encontradas em cima do peito de um corpo suicida, com os pulsos cortados e um meio sorriso.

terça-feira, 25 de outubro de 2011




Eu quero me encantar mais vezes.

Admirar mais vezes. Compartilhar mais amor. Dançar com a vida com mais leveza, sem medo de pisarmos nos pés uns dos outros.

Quero fazer o meu coração arrepiar mais frequentemente de ternura diante de cada beleza revista ou inaugurada.

Quero sair por aí de mãos dadas com a criança que me habita, sem tanta pressa.

Brincar com ela mais amiúde. Fazer arte.

Aprender com Deus a desenhar coisas bonitas no mundo.

Colorir a minha vida com os tons mais contentes da minha caixa de lápis de cor.

Devolver um brilho maior aos olhos, aos dias, aos sonhos, mesmo àqueles muito antigos, que, apesar do tempo, souberam conservar o seu viço.

Quero sintonizar a minha frequência com a música da delicadeza.

Do entusiasmo. Da fé. Da generosidade. Das trocas afetivas. Das alegrias que começam a florir dentro da gente.
Quero ter atenção com relação ao que sinto, ao que vejo, ao que propago.

Mais cuidado para não me intoxicar com os apelos do medo e do pessimismo, tão divulgados nesses nossos tempos.

Não me importa se eu olhar na contramão: quero ter a coragem de sustentar a minha crença de que o amor, a paz, a luz, hão de prevalecer na Terra, e, enquanto isso não acontecer, quero dirigir também a minha energia ao propósito de que prevaleçam em mim.

Quero me sentir feliz.

Uma felicidade que não está condicionada à realização das coisas que, particularmente, anseio para mim.

Para a minha história nesse mundo. Para esse personagem que eu visto. Quero, antes de qualquer outra razão, me sentir feliz por encontrar descanso e contentamento no meu coração. Por tocar com o sentimento a preciosidade da vida. Por saber que existem coisas para eu realizar enquanto estou por aqui.

Por acreditar que a maior proposta da idéia humana é a felicidade.

Não importa quantas nuvens eu possa ter que dissipar: gente, por natureza, é sol, e eu quero viver esse lume.

Ana Jácomo

quinta-feira, 13 de outubro de 2011




Junto todas minhas metades e misturo com açúcar, sono, loucura, agenda, amor ou pimenta, com o ingrediente que o dia me dá. Procuro esquecer os enganos, os planos. Respiro. Sou de montanha russa, voltas e revoltas e calmaria. Delirante, suspiro divagações e me perco em raios, cheiros e ventanias. Sinto pelo instinto e antecipo. Acerto o compasso perdido nas incertezas, saudades e nostalgias. Trago. Pensamentos vão e voltam ondulando um futuro de cismas, novidades, medo e sinergias. Canso de mim. Saio, viro gata, bicho preguiça, leoa, passarinho e volto pro ninho. Danço, oscilo e me desconcerto entre pessoas, conserto. Sacio parcialmente as vontades, desejos e lá já vem um outro dia, para misturar a minha própria companhia.


(Josi Puchalski)

terça-feira, 11 de outubro de 2011


Coisas que a vida ensina depois dos 40

Amor não se implora, não se pede,não se espera...
Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.
Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que
abrem portas para uma vida melhor
O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções,
destrói preconceitos,cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...

Artur da Távola

sábado, 8 de outubro de 2011


"All you need is love, eu tenho tatuado!
O amor é fundamental.
O amor é o principio, é o êxtase, é a eliminação do ego,
é quando você enxerga o outro não como um jogador.
É quando você começa a olhar junto pras mesmas coisas, com a mesma delicadeza,
e as coisas ficam tão melhores com o amor.
O amor é fundamental.
O amor é a primeira coisa.
É o começo do resto."

Fernanda Young

sexta-feira, 30 de setembro de 2011



"Foi então que compreendi. Que é minha função escolher.
Que tipo de dia vou ter hoje.
Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição.
Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.
Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo.
Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido.
Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho.
Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus.
Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades.
Se as coisas não saíram como planejei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar.
O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser.
E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma.
Tudo depende só de mim."

(Charles Chaplin)

sábado, 10 de setembro de 2011


"...eu posso desligar o computador, posso quebrar a televisão, nunca mais ler jornal, fechar os olhos, apertar os punhos, tapar os ouvidos, encher minha boca de tantas outras palavras, de tantos outros cantos que não falem de você.
Mas não, nada adianta.
Não te cantar não significa não te escrever nas minhas entrelinhas, tapar os ouvidos não significa não te ecoar o tempo todo dentro de mim, no escuro do que é ser eu.
murros ao vento não impedem a dor, olhos fechados também conseguem chorar sua ausência. jornal, internet, televisão, fax, rádio, código Morse, sinal de fumaça...
como se a nossa sintonia dependesse, mesmo, disso..."

Rani Ghazzaoui

sexta-feira, 12 de agosto de 2011





" Ele não sabe mais nada sobre mim.
Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática e
sem aquela necessidade toda de ser amada.
Ele não sabe quantos livros pude ler em algumas semanas.
Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos.
Ele não sabe que a cada dia eu penso menos nele, mas que conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranqüilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto.
Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias todos e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos.
Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco.
Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos. Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim.
Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre.
Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura.
Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso.
Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha.
Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria."

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011



"Sigo a vida conforme o roteiro, sou quase normal por fora, pra ninguém desconfiar.Mas por dentro eu deliro e questiono. Não quero uma vida pequena, um amor pequeno, um alegria que caiba dentro da bolsa. Eu quero mais que isso. Quero o que não vejo. Quero o que não entendo. Quero muito e quero sem fim. Não cresci pra viver mais ou menos, nasci com dois pares de asas, vou aonde eu me levar. Por isso, não me venha com superfícies, nada raso me satisfaz. Eu quero é o mergulho. Entrar de roupa e tudo no infinito que é a vida. E rezar – se ainda acreditar – pra sair ainda bem melhor do outro lado de lá."


Fernanda Mello




"Pior do que se sentir perdida é perder-se em si mesmo.
No emaranhado do que você acredita misturado ao que você é ou era.
O que você acredita, apostando corrida com o que você mais detesta.
O que você tem, jogando palitinhos com o que você quer.
Seu amor e suas dores na linha de chegada e o coração de juiz em dia de clássico.
Eu não sei se você entende o raciocínio de quem não tem raciocinado ultimamente ou se entende o porquê de certas coisas que não se explicam. Quando a cabeça não pensa o corpo padece. Mas quando a cabeça pensa demais será que nossa alma enriquece? Você cheio de indagações e de táticas que não fazem o menor sentido. (pelo menos para você ou pelo menos naquele momento). Suas certezas mudam, suas prioridades deixam de ser prioridades já que você nem sabe mais o que deseja.
Até sabe, mas está tão longe e você tão cansado que o mais fácil é deixar que as prioridades te encontrem e você pode fugir do que não interessa. Seus princípios enfraquecidos te cobram uma atitude e você cobra a coragem.
Seus olhos pesam e seu coração já bate fraco.
De tanto que bateu a vida inteira.
De tanto chorar amor e fracassos.
De tanto chorar pelo leite derramado você decide que se entender é complicado demais.
O quente queima e o frio é gelado demais, vai o morno mesmo que não causa sensação alguma e no momento você não tem sequer condições de sentir algo.
Sentir dá trabalho e trabalho acarreta uma série de responsabilidades. Responsabilidade é chato demais e não aquece seus pés nos dias frios.
Você enfim, opta por decidir somente pelo necessário.
Pelo que realmente vai fazer alguma diferença em sua vida e desiste de tentar equilibrar-se, isso é para artista circense e você nem gosta tanto de circo. Melhor deixar assim.
Uma porta de saída e uma de entrada.
O que vale fica e o que não vale que valesse.
Nada de culpa ou de noites mal dormidas, nada de coração na boca em de frio na barriga.
Certas coisas não se explicam.
Não existem palavras que as descrevam ou soluções que as resolva . Sentimentos, gestos, sonhos e sorrisos.
A alma entende e a boca cala."


Fernanda Mello

quarta-feira, 27 de julho de 2011


"O que prevalece agora é essa maneira nova de sentir a vida.
Essa perspectiva que me faz admirar, incansáveis vezes, antigas preciosidades.
Essa vontade de bendizer tantas maravilhas.
Esse sentimento de gratidão pelas coisas mais simples que existem.
Esse jeito mais amigo de ouvir meu coração.
O que prevalece agora é essa apreciação mais desperta,
que me permite reinaugurar flores e céus e pessoas no meu olhar.
Essa graça que encontro, de graça, nos detalhes mais singelos.
O que prevalece agora é a confortável suposição de que, por trás de tantas e habituais nuvens, esse contentamento faz parte da nossa natureza.
Os problemas, os desafios, as limitações, não deixaram de existir. Deixaram apenas de ocupar o espaço todo."


(Ana Jácomo)


quinta-feira, 21 de julho de 2011



“Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. (…)
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.
Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.
Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração.
E o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. (…)
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos.
Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.
Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.”



Fernando Pessoa.

segunda-feira, 18 de julho de 2011



Lá está ela, mais uma vez.

Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso.

Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever.

Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.

Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas.De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar.

Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.

Estranho é que ela já apanhou demais da vida.

Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta.

E quem não é?

A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?

A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não?

Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando.

Daí você espera por alguém que venha te curar.

Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não.

E pra ela? Por quem ela espera?

E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.

A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente.

Não por ser forte, e sim pelo contrário…

Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência.

E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda.

Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

(Caio Fernando Abreu)

domingo, 17 de julho de 2011



"Algumas pessoas se destacam para nós (...)

Não importa quando as encontramos no nosso caminho.

Parece que estão na nossa vida desde sempre e que mesmo depois dela permanecerão conosco.

É tão rico compartilhar a jornada com elas que nos surpreende lembrar de que houve um tempo em que ainda não sabíamos que existiam.

É até possível que tenhamos sentido saudade mesmo antes de conhecê-las.

O que sentimos vibra além dos papéis, das afinidades, da roupa de gente que usam.

Transcende a forma. Remete à essência. Toca o que a gente não vê. O que não passa. O que é (...)

Com elas, o coração da gente descansa.

Nós nos sentimos em casa, descalços, vestidos de nós mesmos.

O afeto flui com facilidade rara.

Somos aceitos, amados, bem-vindos, quando o tempo é de sol e quando o tempo é de chuva.

Na expressão das nossas virtudes e na revelação das nossas limitações.

Com elas, experimentamos mais nitidamente a dádiva da troca nesse longo caminho de aprendizado do amor. "


(Ana Jácomo)

quinta-feira, 14 de julho de 2011



"É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado.
É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.
Difícil é amar quando o outro desaba.
Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. A coerência. O rebolado.
Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja.
Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, do nosso faz-de-conta, para caminhar humanamente ao seu encontro.
Difícil é amar quem não está se amando.
Mas esse talvez seja, sim, o tempo em que o outro mais precisa se sentir amado.
Eu não acredito na existência de botões, alavancas, recursos afins, que façam as dores mais abissais desaparecerem, nos tempos mais devastadores, por pura mágica.
Mas eu acredito na fé, na vontade essencial de transformação, no gesto aliado à vontade, e, especialmente, no amor que recebemos, nas temporadas difíceis, de quem não desiste da gente."

Ana Jácomo

terça-feira, 12 de julho de 2011



"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza.
Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir ás minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio.
Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco."



Gabriel García Marquez

sábado, 2 de julho de 2011


"Antes de pensar no outro a gente precisa pensar na gente (alguém me lembra disso daqui a 10 minutos?).
E sempre fui de colocar o outro na frente.
Se você está com problema, sentou aqui e contou, pode ter certeza que vou ficar pensando numa forma de ajudar.
Vou movimentar quem eu conheço pra ajudar.
Já dei roupa, dinheiro, comida, tempo, ouvidos, colo, abraços.
Já dei minha paz.
(...) Não mereço um prêmio por nada, nadinha disso, fiz e faço muitas outras coisinhas, coisas e coisonas porque gosto, porque me sinto bem fazendo, porque acho que certas coisas a gente precisa e deve fazer.
É o meu jeito, é a minha maneira de viver.
Só não quero me frustrar tanto com os outros.
Sempre penso que se eu faço o outro também pode fazer e isso é errado, tá errado, muito errado (me lembra disso hoje e amanhã e depois?), afinal, cada um é de um jeito, cada um tem seus valores, cada um tem sua personalidade, cada um tem sua prioridade, cada um tem um estilo de ser e ver.
Mas uma coisa é certa: preciso parar de olhar tanto para você e olhar mais para mim."

Clarissa Corrêa

sexta-feira, 1 de julho de 2011



Você foi covarde.
Seu amor é forte, seu corpo é fraco.
Você foi covarde como tantas vezes fui por acreditar que a coragem viria depois. A coragem não vem depois. A coragem vem antes ou não vem.
Não posso amaldiçoar sua covardia.
Sua boca não é rápida como suas pernas para me agarrar.
Minhas pernas não são tão rápidas quanto minha boca para lhe impedir.
Você foi covarde.
Pela gentileza de sempre dizer sim, repetidos sim, quando não estava ouvindo.
Já desfrutei de sua covardia, ríspido recusá-la agora, porque não me favorece. Porque não fui escolhida. Não aquecerei seu prato para servi-lo. Não a ajudarei no parto.
Não partirei. Serei aquela que deveria ter sido, enterrada sem morrer, a que desapareceu permanecendo perto.
Sou seu constrangimento mais alegre.
Sua ferida, seu feriado.
Com o tempo, serei sua vontade de se calar. De se retirar da sala.
Não conhecerá meus hábitos de puxar o café antes de ficar pronto.
De abrir as venezianas como quem procura reunir os chinelos ao vento.
Você foi covarde, ninguém iria compreendê-lo.
Hoje todos a compreendem, menos você mesmo. Você não se compreende depois disso. O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha.
Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano. Sua esperança não diminui a covardia.
Quer um conselho?
Finge que a dor que sente é a minha para entreter sua dor.
Saudades ficam violentas quando mudamos de endereço.
Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido.
Você confunde sacrifício com covardia.
Compreendo.[...]
[...]
Eu confundo amor com loucura.
Cada um tem seus motivos, sua maneira de se convencer que fez o melhor, fez o que podia.
Você me avisou que não tinha escolha.
Nunca teria escolha.
Você foi educado com a vida, pediu licença, agradeceu os presentes.
Confiou que a vida logo o entenderia. E cederia. Engoliu uma palavra para dormir. Não serei vizinha de seu sobrenome. Seus nomes esperam um único nome que ficou para trás.
Você não desencarnou, não se encarnou, deixou sua carne parada nas leituras. Morrer é continuar o que não foi vivido. Vai me continuar sem saber.
Você foi covarde.
Com sua ternura pálida, seu medo de tudo, sua polidez em cumprir as promessas.
Você não aprendeu a mentir. Tampouco aprendeu a dizer a verdade.
O dia está escuro e não soprarei a luz ao seu lado.
O dia está lento e não haverá movimento nas ruas.
Você não revidou nenhuma das agressões, não revidará mais essa.
Você foi covarde.
A mais bela covardia de minha vida.
A mais comovida.
A mais sincera. A mais dolorida.
O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia.
Foi o que restou de você em mim.


(Fabricio Carpinejar)

"Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver.
Todas as manhãs ela caminha vagarosamente para pegar o ônibus que a levará para lugar nenhum, para ver ninguém.
E todas as manhãs ela imagina como serão as tardes, ja sabendo a resposta, finge ser feliz assim todas as manhãs.
E todas as manhãs ela espera pela noite, ela espera assim arduamente para voltar para seu quarto, e ser triste.
É quando ela sente que esta assim completa.
Completamente triste, mas completa.
E quando ela tira a roupa e põe todo o seu corpo em baixo das cobertas quentes e sente que começa a sonhar, é quando ela sorri .
Assim pra ninguém.
Mas pra ela mesma.
E viver vale a pena."


Clarice Lispector


Não sigo muito o padrão da sociedade, vivo de tenis e jeans meu cabelo está sempre natural desarrumado, sou de poucos amigos e a maioria são homens e não vejo problema em ser a única menina na rodinha deles. Sou muito preguiçosa adoro ficar deitada e estou sempre comendo, meu humor muda constantemente tudo depende do lugar da hora da pessoa da música etc .. Gosto de me arriscar particularmente adoro o perigo e o proibido, não faço o estilo de menina patricinha delicada so um pouco fria e largada, falo besteira e palavrões até pelos cotovelos.
Eu sou viciada em sapatos, mas prefiro usar um tênis mesmo. Eu sou louca por maquiagem, mas prefiro um lápis, um rímel e um baton e pronto. Eu acho muito perfeito esses pentiados de cabelos, mas prefiro mil vezes o meu solto e bagunçado. E aí as pessoas me chama de desleixada e dizem que isso não é feminino. E quer saber? Deixo que elas pensem, é simples. Até porque, eu odeio rótulos, odeio regras e odeio ser igual ou parecida com todo mundo, porque eu amo ser diferente mesmo.

Meu cabelo é bagunçado, uso shorts rasgado. Meu all star está surrado, minha maquiagem está borrada. Minhas unhas imperfeitas quebram sem parar. Minha risada é alta, minha voz é estranha e eu faço caretas involuntariamente. Como pipoca, brigadeiro e sorvete sem culpa. Danço como uma louca em casa, na escola e na rua.
Falo palavrões fluentemente e é uma pena que eu não possa incluir isso no meu currículo. Não sofro disturbios alimentares, sou estressada pra caralho.
E sabe de uma coisa?
Foda-se a sociedade.
Pessoas perfeitas são um saco.



(Junção de alguns textos de Autores desconhecidos)

quinta-feira, 30 de junho de 2011


"Eu não sou legal, não mesmo.

Acho que sempre tenho razão e quando minhas previsões dão certo olho com a cara mais abominável do mundo, dou um sorriso irônico e falo o clássico eu-te-avisei.

É que, em geral, eu tenho razão.

Essa é a primeira –e mais importante – coisa que você precisa aprender a meu respeito.

(...) Não sei receber elogios, fico sem saber o que fazer, me atrapalho e acabo trocando de assunto – quando não troco as pernas e tropeço em algum canto de mim.

Sorrio para disfarçar desconfortos.

Se eu não gosto de você é bem provável que você tenha medo do meu olhar.

E eu posso simplesmente não gostar de você de graça.

Se eu gostar de você aviso de antemão que você é uma pessoa de sorte.

Eu me entrego.

Quem vive comigo sabe. Quem convive comigo sente.

Eu amo poucos.

Mas esses poucos, pode apostar, amo muito."

Clarissa Corrêa